Só mais uma madrugada em claro mesmo.
Estava conversando com uma amiga, sobre memória sonora. Que é o poder que a música tem de nos levar pra momentos que passamos. Achamos a música boa ou ruim, só dependendo do que ela nos diz, nos traz, ou nos marca.
Ela lembrou uma banda que faz com que todos lembrem dela e me disse que se lembra de mim quando ouve Death Cab For Cutie.
Foi surpresa pra mim, confesso. Mas tratei logo de escutar a banda e ver onde ali estava um pouco de mim. Não achei pouco, mas muito.
Meu irmão me passou um bendito vírus que é ver clipes no youtube, e foi o que fui fazer, depois de ouvir Soul Meets Body. Parti para o clipe imaginando uma mulher com seus grandes olhos castanhos e cabelo liso fininho encarando o cara de óculos um pouco desajeitado.
Bem, foi quase isso. O cara desajeitado de óculos estava lá. Mas não tinha mulher, haviam notas musicais, que estavam pelo ar, passeando como lembranças soltas por aí. Elas viajavam ao sabor do vento, depois de passarem despercebidas, perdendo-se com a mudança de estação. Eram tão sonoras que passavam despercebidas.
Ele não viu a música no ar, não sentiu o bem-estar que ela trazia, não compreendeu que aquilo era parte dele e que queria estar ali. Ele seguiu em frente.
Ah, a música estava lá por ele, tanto que acabou e morreu longe.
As lembranças vêm de fatos, sentimentos, vontades, cheiros, cores, momentos que de tão únicos calam o lugar mais barulhento, fazem o ar poluído de qualquer capital parecer a brisa do mar. Mas também vem de derrotas, fugas, medos, e silêncios.
Talvez aí que tenha me tocado o clipe. A música estava sempre lá, querendo ser ouvida, querendo ser apreciada, querendo… Querendo…
Mas não dá pra ouvir quando não se entrega. Não dá pra ouvir quando não se acredita. Não dá pra ouvir quando não se insiste. Não dá pra ouvir quando não se entende.
O clipe acaba assim. Ele continua caminhando, mas a música não está mais lá. A música quando não escutada se perde no ar, ela deixa de ser a lembrança, que nunca foi, pra se tornar nada.
Ela acaba (a música, o momento, os olhos castanhos) . Tal qual cor que não perfuma. E ela não está mais lá, ela não está mais aqui. Se foi, passou, chegou mas não atravessou o inverno, aliás, foi vento de verão a levou a outros cantos, outros lugares. Que ele nunca saberá quais são, nem quais seriam.
Isso é o que chamo de não-momento. Que traz não-lembrança, não-alegria. Nada.
Agora falando de mim, sem máscaras, eu não sei sentir essa música suave, não sei transforma-lo em lembrança, não sei fazer com que ganhe sentido e que seja comigo.
A música passa, e passa, e passa.
E a lembrança que ficou foi, porque minha música virou esse silêncio ensurdecedor?

3 comments
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Fevereiro 21, 2007 às 6:30 am
jonascastilhos
Vendo de novo vi o quanto podia aprofundar a história e mergulhar mais nas deslembranças. Ainda bem que parei.
Fevereiro 21, 2007 às 6:31 am
jonascastilhos
Aprofundar mais a análise daquilo que toca no clipe.
Fevereiro 23, 2007 às 1:12 pm
militao
Fala jonas!!! Valeus pela visita por la. Vou por o link do seu la no meus favoritos!
Abraços!